Monthly Archives: Janeiro 2010

>Onde está o seu filho? Deve estar online há mais de dez horas

> Nos Estados Unidos, o jovem típico passa quase todos os instantes em que está acordado, salvo quando está na escola, a usar um smart phone, um computador, um televisor ou outro dispositivo electrónico. É o que revela um novo estudo da Kaiser Family Foundation. Os dos 8 aos 18 anos passam mais de sete horas e meia por dia de volta desses dispositivos… isso não leva em conta a hora e meia que os jovens passam a enviar mensagens de texto nem a meia hora que passam a falar por telemóvel. E como muitos deles são virtuosos da multitarefa (por exemplo, navegar na internet e ouvir música), concentram nessas sete horas e meia quase 11 horas de conteúdo multimédia.
“Acho que os meus dias seriam uma chatice sem isso”, diz Francisco Sepúlveda, de 15 anos, aluno do oitavo ano no Bronx, que usa o smart phone para navegar na Web, ver vídeos, ouvir música… e enviar ou receber cerca de 500 mensagens de texto diariamente…
… o estudo constatou que a intensa utilização dos média está associada a vários aspectos negativos, como problemas comportamentais e notas baixas… 47% dos mais intensos utilizadores de média (consomem pelo menos 16 horas por dia) tinham, na maioria, notas sofríveis ou más, comparados com 23% dos que consomem três ou menos horas. Os maiores utilizadores de média tinham mais probabilidades do que os seus congéneres moderados de se declararem aborrecidos ou tristes, de se meterem em sarilhos, de não se darem bem com os pais e de não serem felizes na escola… O relatório baseia-se num estudo junto de mais de 2 000 alunos do 3.º ao 12.º ano e foi realizado de Outubro de 2008 a Maio de 2009. Em média, os jovens passam cerca de duas horas ligados a um dispositivo móvel, revelou o estudo… Passam quase outra hora completa com conteúdos “velhos” como televisão ou música… Os jovens passam agora mais tempo a ouvir ou ver conteúdos, ou a jogar nos seus telemóveis do que propriamente a falar. “Uso-o como despertador, porque tem um toque irritante que não pára até ser desligado”, diz Francisco Sepúlveda do seu smart phone. “À noite, posso enviar mensagens de texto ou ver qualquer coisa no YouTube até adormecer. Permite-me falar ao telefone e ver um vídeo ao mesmo tempo, ou ouvir música enquanto envio mensagens.”
A mãe (diz): “Acho que ele o usa 2% para trabalhos de casa e 98% para o resto”, diz ela. “Ao princípio, tirava-lho às 22h e dizia-lhe que não o podia usar mais. Agora, ele sabe que, se não respeitar, posso cortar-lhe o acesso ao serviço durante uma ou duas semanas. Já aconteceu.”
O estudo Kaiser descobriu que mais de sete em cada 10 jovens tem um televisor no quarto e que cerca de um terço tem lá também um computador com acesso à internet. “Os pais nunca sabem tanto como pensam sobre o que os filhos andam a fazer”, diz Roberts, “mas agora criámos um mundo em que eles estão muito mais afastados de nós e os pais não fazem ideia do que os filhos estão a ouvir e a ver nem sobre o que falam”.
O estudo constatou que os jovens usam menos media em lares onde há regras como televisão desligada durante as refeições e nada de televisores nos quartos, ou com limites de tempo.
Victoria Rideout, vice-presidente da Kaiser e principal autora do estudo, diz que, embora se tenha tornado mais difícil aos pais controlarem os filhos, a sua actuação pode continuar a ter efeitos. “Não acho que os pais devam sentir-se incapacitados”, diz ela. “Podem continuar a estabelecer regras e isso ainda marca a diferença.”
Em Kensington (Maryland), Kim Calinan deixava o seu filho Trey, ainda bebé, ver vídeos da “Baby Einstein” enquanto tomava duche e fazia o jantar, e depressa o passou para “Dora the Explorer”. “Aos 4 anos já tinha imensos DVD de matemática e ciência, nos quais navegava sozinho e aprendeu a ler e a fazer contas muito cedo. Por isso, se tivéssemos esta conversa nessa altura, eu teria dito que são óptimos auxiliares educativos”, diz ela.
Mas agora que Trey tem nove anos e é maluco por jogos de vídeo, Calinan pensa de outra maneira. Em 2009, apercebeu-se de que os jogos de vídeo estavam a ser substituídos por outros interesses e a restringir-lhe a interacção social. Depois de perceber que Trey não se queria inscrever em nenhuma actividade extra-escolar para não prejudicar o tempo dedicado aos jogos, Calinan limitou-lhe o tempo à frente do ecrã a hora e meia por dia, e só aos fins-de-semana. Por isso, na quarta-feira passada, Trey chegou da escola e leu um livro, “Secret Hiding Places”, mas disse que ansiava pelo fim-de-semana para jogar o seu jogo preferido, “Pokemon Mystery Dungeon: Explorers of Sky”.
Muitos peritos consideram que a utilização dos media está a mudar as atitudes dos jovens. “Mudaram os pressupostos dos jovens sobre a maneira de obterem respostas a perguntas”, diz Roberts. “As pessoas podem pôr um problema, quer ele seja ‘Onde há um bom bar?’ ou ‘Será que estou grávida?’ e as informações chovem de todos os tipos de fontes.” Os maiores utilizadores de média, revelou o estudo, são crianças pequenas e jovens adolescentes entre os 11 e 14 anos, de raça negra ou hispânica. E o Twitter ainda não existia.

>SERÁ QUE ISTO SÓ ACONTECE NO BRASIL?

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>O PROCESSO chamado ‘Face Oculta’

> O PROCESSO chamado ‘Face Oculta’ tem as suas raízes longínquas num fenómeno que podemos designar por ‘deslumbramento’.
Muitos dos envolvidos no caso, a começar por Armando Vara, são pessoas nascidas na Província que vieram para Lisboa, ascenderam a cargos políticos de relevo e se deslumbraram.
Deslumbraram-se, para começar, com o poder em si próprio. Com o facto de mandarem, com os cargos que podiam distribuir pelos amigos, com a subserviência de muitos subordinados, com as mordomias, com os carros pretos de luxo, com os chauffeurs, com os salões, com os novos conhecimentos.
Deslumbraram-se, depois, com a cidade. Com a dimensão da cidade, com o luxo da cidade, com as luzes da cidade, com os divertimentos da cidade, com as mulheres da cidade.

ORA, para homens que até aí tinham vivido sempre na Província, que até aí tinham uma existência obscura, limitada, ligados às estruturas partidárias locais, este salto simultâneo para o poder político e para a cidade representou um cocktail explosivo.
As suas vidas mudaram por completo.
Para eles, tudo era novo – tudo era deslumbrante.
Era verdadeiramente um conto de fadas – só que aqui o príncipe encantado não era um jovem vestido de cetim mas o poder e aquilo que ele proporcionava.
Não é difícil perceber que quem viveu esse sonho se tenha deixado perturbar.

CURIOSAMENTE, várias pessoas ligadas a este processo ‘Face Oculta’ (e também ao ‘caso Freeport’) entraram na política pela mão de António Guterres, integrando os seus Governos.
Armando Vara começou por ser secretário de Estado da Administração Interna, José Sócrates foi secretário de Estado do Ambiente, José Penedos foi secretário de Estado da Defesa e da Energia, Rui Gonçalves foi secretário de Estado do Ambiente.
Todos eles tiveram um percurso idêntico.
E alguns, como, Vara e Sócrates pareciam irmãos siameses: Naturais de Trás-os-Montes,
vieram para o poder em Lisboa, inscreveram-se na universidade, licenciaram-se, frequentaram mestrados.
Sentindo-se talvez estranhos na capital, procuraram o reconhecimento da instituição universitária como uma forma de afirmação pessoal e de legitimação do estatuto.

A QUESTÃO que agora se põe é a seguinte: por que razão estas pessoas apareceram todas na política ao mais alto nível pela mão de António Guterres?
A explicação pode estar na mudança de agulha que Guterres levou a cabo no Partido Socialista.
Guterres queria um PS menos ideológico, um PS mais pragmático, mais terra-a-terra.
Ora estes homens tinham essas qualidades: eram despachados, pragmáticos, activos, desenrascados.
E isso proporcionou-lhes uma ascensão constante nos meandros do poder.
Só que, a par dessas inegáveis qualidades, tinham também defeitos. Alguns eram atrevidos em excesso. E esse atrevimento foi potenciado pelo tal deslumbramento da cidade e pela ascensão meteórica.

QUANDO o PS perdeu o poder, estes homens ficaram momentaneamente desocupados. Mas, quando o recuperaram, quiseram ocupá-lo a sério.
Montaram uma rede para tomar o Estado.
José Sócrates
ficou no topo, como primeiro-ministro, Armando Vara tornou-se o homem forte do banco do Estado – a CGD -, com ligação directa ao primeiro-ministro, José Penedos tornou-se presidente da Rede Eléctrica Nacional, etc.
Ou seja, alguns secretários de Estado do tempo de Guterres, aqueles homens vindos da Província e deslumbrados com Lisboa, eram agora senhores do país.
MAS, para isso ser efectivo, perceberam que havia uma questão decisiva: o controlo da comunicação social.
Obstinaram-se, assim, nessa cruzada.
A RTP não constituía preocupação, pois sendo dependente do Governo nunca se portaria muito mal.
Os privados acabaram por ser as primeiras vítimas.
O Diário Económico
, que estava fora de controlo e era consumido pelas elites, mudou de mãos e foi domesticado.
O SOL foi objecto de chantagem e de uma tentativa de estrangulamento através do BCP (liderado em boa parte por Armando Vara).
A TVI, depois de uma tentativa falhada de compra por parte da PT, foi objecto de uma ‘OPA’, que determinou a saída de José Eduardo Moniz e o afastamento dos ecrãs de Manuela Moura Guedes.
O director do Público foi atacado em público por Sócrates – e, apesar da tão propalada independência do patrão Belmiro de Azevedo, acabou por ser substituído.
A Controlinvest, de Joaquim Oliveira (que detém o JN, o DN, o 24 Horas, a TSF) está financeiramente dependente do BCP, que por sua vez depende do Governo.

SUCEDE que, na sua ascensão política, social e económica, no seu deslumbramento, algumas destas pessoas de quem temos vindo a falar foram deixando rabos de palha. É quase inevitável que assim aconteça.
O caso da Universidade Independente, o Freeport, agora o ‘Face Oculta’, são exemplos disso – e exemplos importantes da rede de interesses que foi sendo montada para preservar o poder, obter financiamentos partidários e promover a ascensão social e o enriquecimento de alguns dos seus membros.

É isso que agora a Justiça está a tentar desmontar: Essa rede de interesses criada por esse grupo em que se incluem vários “boys” de Guterres. Consegui-lo-á? Não deixa de ser triste, entretanto, ver como está a acabar esta história para alguns senhores que um dia se deslumbraram com a grande cidade.

Esta é a forma mais eloquente de definir um parolo provinciano com tiques de malandro… “mas sempre de mão estendida” pior que os arrumadores que uma vez na vida se revelam minimamente úteis independentemente do ar miserável como se apresentam e se comportam quando não se lhes dá a famigerada moedinha .

José António Saraiva