Monthly Archives: Fevereiro 2010

>DIA 20 de Março… LIMPAR PORTUGAL

> Transcrição do artigo de Maria de Lurdes vale, no Diário de Noticias
http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1507016&seccao=Maria%20de%20Lurdes%20Vale&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
Num dos seus mais recentes programas, a apresentadora Oprah convidava uma típica família americana – pai, mãe e dois filhos menores – a mudar de hábitos durante uma semana. O desafio era difícil. Significava não ver televisão, não usar telemóvel, prescindir do computador e dos jogos da PlayStation. O resultado foi bastante interessante. O casal, com uma vida diária atarefada, passou a ter mais tempo para conversar, e isso teve um importante reflexo na relação com os filhos. Descobriram coisas acerca uns dos outros de que nem sequer se tinham apercebido antes. Tornaram-se mais criativos, alegres e companheiros e até passaram a interagir mais com os vizinhos e com o mundo ao seu redor. Perceberam que valia a pena desligar, de vez em quando, para se encontrarem a si mesmos. E foram mais felizes.

Nos dias que correm, desligar deveria ser uma palavra de ordem. Andamos saturados de tanto ruído e demasiados dependentes das novas tecnologias. Mais agressivos e menos tolerantes. Percebemos que o tempo vai passando e que, afinal, não temos tempo para nada. É por isso necessário reencontrar o equilíbrio ou, caso contrário, pagaremos cara a factura. O planeta reflecte o nosso estado de ânimo e o mal que lhe fazemos. A saturação a que estamos sujeitos tem eco na natureza, que protesta, que se revolta. As catástrofes naturais sucedem-se e casos como os do Haiti, da Madeira e do Chile são os extremos que fazem despertar a solidariedade e o interesse pelos outros e pensar naquilo que é realmente importante. Cuidar de nós, cuidar dos nossos e daquilo que temos à nossa volta.

Vem esta reflexão a propósito do movimento Limpar Portugal, que nasceu, no ano passado, fruto da boa vontade de cinco ou seis portugueses que pensaram na melhor forma de aproveitar um dia – 20 de Março – para levar a cabo um grande feito. Ninguém os conhece, não são famosos, são cidadãos que se lembraram, com base numa experiência que viveram na Estónia, de limpar o país de norte a sul, começando pela floresta, um bem precioso de que Portugal dispõe e não sabe aproveitar nem dar valor.

Neste site http://www.limparportugal.org/ encontram-se a história e os objectivos desta missão, que já conta com o entusiasmo de milhares de pessoas, através de grupos organizados distritos a distrito, concelho a concelho, e que conseguiu o apoio de várias instituições e empresas a nível local, regional e nacional.

No dia 20, vamos rumar à floresta e desligar do resto. Com os filhos, amigos e vizinhos façamos algo de útil e solidário para com este país tão maltratado. É uma forma activa de participar na construção de um mundo que queremos melhor. Obrigada a quem se lembrou desta iniciativa. Esperemos que resulte.

Publicada por A. João Soares em SEMPRE JOVENS a 2/28/2010

>SOL&SOMBRA

>No momento em que muitos tentam converter a violação do segredo de Justiça no maior crime do país – pior do que um assalto à mão armada, a corrupção dos poderes públicos ou o tráfico de influências político-económicas por redes organizadas no aparelho de Estado… – um dos mais prestigiados penalistas portugueses veio pôr os pontos nos is. Defendendo que o valor da liberdade de imprensa, dos direitos da profissão dos jornalistas e do escrutínio da integridade ética dos governantes se podem sobrepor e afastar a ilicitude da eventual violação do segredo de Justiça. Depois da intervenção no mesmo sentido de outro penalista e professor de Direito, Paulo Pinto de Albuquerque, a ainda jovem democracia portuguesa fica mais forte e defendida com a contribuição cívica destas vozes respeitadas e autorizadas.

http://sol.sapo.pt/blogs/jal/archive/2010/02/26/SOL_2600_SOMBRA-26_2F00_02_2F00_2010.aspx

Costa Andrade, no Jornal “Sol”

>O POLVO…

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Algumas pessoas acharam exagerado, se não mesmo injustificado, o título de primeira página da última edição do SOL: O Polvo.
É natural: há quem tenha falta de memória e quem não conheça suficientemente o mundo dos media para avaliar o que se tem passado.
Como principal responsável por esse título, tenho todo o gosto em justificá-lo.
O caso já vem de longe.
Há perto de dois anos, a Ongoing comprou o grupo Económica (proprietário do Diário Económico) por uma quantia exorbitante, substituiu o director do jornal e pensou em transformá-lo num ‘órgão oficioso’, através do qual o Governo faria passar algumas mensagens.
O caso da TVI é conhecido e não vale a pena insistir nele: a Ongoing (sempre ela) ‘retirou’ Moniz da direcção-geral da estação e a Prisa (grupo espanhol ligado ao PSOE) fez o resto, removendo Moura Guedes da antena.
O director do Público, outro dos inimigos apontados por Sócrates, foi substituído na direcção do jornal.
O SOL, também tido por persona non grata, foi alvo de uma tentativa de estrangulamento (capitaneada por Armando Vara) por parte do BCP – banco que era nosso accionista mas aceitou transformar-se num Cavalo de Tróia.
O DN foi o pivô da duvidosa campanha que envolveu o assessor de imprensa do Presidente da República, Fernando Lima.
O JN recusou publicar um artigo de Mário Crespo incómodo para Sócrates.

Além disso, ficou claro que a PT tentou montar um grupo de media afecto ao Governo – facto que Henrique Granadeiro começou por negar mas acabou por reconhecer, dizendo-se enganado por dois dos seus administradores (o termo foi mais explícito).
Um desses administradores é um jovem do PS que organizou o site da recandidatura de Sócrates à chefia do Governo e foi posto na cúpula da PT com um ordenado faraónico.
Para organizar esse grupo de media, a PT fez diligências junto da Prisa e da Ongoing com vista à aquisição da TVI, e manteve contactos com o grupo Cofina, de Paulo Fernandes, e com o grupo Controlinveste, de Joaquim Oliveira.
A agência Lusa, de que o Estado é accionista, foi alvo de diversas mudanças de direcção – e em certas matérias (como o processo ‘Face Oculta’) houve orientações no sentido de proteger o Governo.
A RTP só se referiu às escutas divulgadas pelo SOL mais de 12 horas depois de a notícia ser pública, facto que causou mal-estar e atritos na redacção.

Para lá disto, a RTP ‘dispensou’ Marcelo Rebelo de Sousa, com a justificação de que deixava de ter o ‘contrapeso’ de António Vitorino – o que é um argumento discutível, visto que o programa de Marcelo era anterior ao de Vitorino e sempre teve existência autónoma.
Paralelamente, foram aliciados antigos jornalistas ou pessoas com ligações aos media, como o bastonário dos advogados, Marinho Pinto, o ex-director da SIC Emídio Rangel ou o ex-presidente da RTP João Carlos Silva.
Neste aspecto, o caso de Marinho Pinto é o mais chocante, pois passou de acérrimo defensor do 4.º poder, quando era jornalista, a cão de fila do poder político.
Para se proteger, o Governo contratou ainda prestigiados advogados, como Proença de Carvalho e José Miguel Júdice, que em diferentes ocasiões têm saído em defesa do primeiro-ministro.

A juntar a isto, criou-se na comunicação social um ambiente de medo, decorrente de três factores: ameaças às empresas de media de cortes no financiamento bancário, distribuição desigual de publicidade por parte do Estado e pressão política sobre os accionistas.
Em ambiente de crise económica e financeira, estes três factores fabricaram um cocktail explosivo.
1. Bancos próximos do Governo ameaçaram dificultar o acesso ao crédito a empresas proprietárias de órgãos de comunicação que se mostrassem rebeldes em relação ao poder;
2. Divulgou-se a ideia de que o Governo (e empresas públicas dele dependentes) discriminaria negativamente, em termos de publicidade, os órgãos de comunicação que o criticassem;
3. Houve chantagens sobre accionistas de meios de comunicação social, ameaçando-os com dificuldades na sua vida empresarial (mesmo fora da área dos media) caso os meios dos quais eram sócios se ‘portassem mal’.
Em muitos casos, poderia tratar-se de ameaças vãs.
Mas as pessoas nunca sabem – e em época de crise é preferível jogar pelo seguro…
O simples medo da existência de problemas funcionou como forma de coacção, levando a cautelas editoriais.

Depois disto ainda haverá dúvidas sobre a existência de um polvo?
O que espanta, aqui, é a enorme quantidade de casos que têm vindo a verificar-se sem que nada aconteça.
Dir-se-ia que o país está anestesiado, já não reage, de tal forma graves são os indícios.
E alguns militantes do PS, que se bateram no passado pela liberdade de imprensa, fingem que não vêem, para não serem obrigados a tomar posição.
Claro que os defensores de Sócrates continuarão a dizer que não há nenhuns sinais de interferência nos órgãos de informação.
Mas isso é normal: os adeptos do Benfica ou do FC Porto nunca acham justo um penálti a favor do adversário, por mais evidente que seja.
Por isso mesmo é que existe o ditado: «O pior cego é o que não quer ver».
Mas as mensagens de apoio e incentivo que tenho recebido no e-mail, no telemóvel e espontaneamente na rua mostram que muitos portugueses já perceberam o que se passa. Talvez a maioria.

P.S. – Nunca defendi a demissão de Sócrates. Nem hoje o faço. Mas o estado de apodrecimento a que chegou a sua entourage (uns são arguidos, outros são suspeitos, outros estão desacreditados), a sua própria falta de honorabilidade (que permite, por exemplo, que um jornal de referência escreva em título de primeira página As mentiras de Sócrates…), levam a que, a partir de agora, o PS e o Governo tenham entrado num plano inclinado onde irão perdendo continuamente força. Se Sócrates durar até às presidenciais (o que é muitíssimo difícil), o PS chegará lá esfrangalhado e sem energia para apoiar consistentemente um candidato alternativo, proporcionando a Cavaco um passeio tranquilo. E então, depois dessas eleições, a saída do PS do poder será inexorável.

Artigo de opinião no Jornal “SOL” , por JAS