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Douro

Cai o sol nas ramadas.
O sol, esse Van Gogh desumano…
E telas amarelas, calcinadas,
Fremem os olhos como um desengano.

A cor da vida foi além de mais!
Lume e poeira, sem que o verde possa
Refrescar os craveiros e os tendais
De uma paisagem mais secreta e nossa.

Apenas uma fímbria namorada,
Vermelha e roxa, se desenha lá ao fundo…
O mosto de uma eterna madrugada
Que vem do incêncio refrescar o mundo.

Miguel Torga, S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1945

Apenas uma nota.

Escrever poesia em “quadra”, assume um verdadeiro desafio à inspiração do autor, no encontro das palavras rimadas, sem perder a intensidade da mensagem, nem mesmo a sua musicalidade.
Torga, neste poema “Douro”, coloca-nos no meio da terra, que em tempo da colheita das uvas, ferve, abrasa, endoidece quem nela trabalha. É a vida em tom de dor. Mas tudo se esquece e tudo é ressalvado, por esse nectar que… roxo, vermelho e em mosto se transforma para ir…até aos confins do mundo, numa peregrinação de “sabores”.
Neste poema, sentimos a força das palavras numa musicalidade presente. A mensagem aí a temos com palavras de vogais abertas, em abraços rimados.

Maria José Areal

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