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Douro

Cai o sol nas ramadas.
O sol, esse Van Gogh desumano…
E telas amarelas, calcinadas,
Fremem os olhos como um desengano.

A cor da vida foi além de mais!
Lume e poeira, sem que o verde possa
Refrescar os craveiros e os tendais
De uma paisagem mais secreta e nossa.

Apenas uma fímbria namorada,
Vermelha e roxa, se desenha lá ao fundo…
O mosto de uma eterna madrugada
Que vem do incêncio refrescar o mundo.

Miguel Torga, S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1945

Apenas uma nota.

Escrever poesia em “quadra”, assume um verdadeiro desafio à inspiração do autor, no encontro das palavras rimadas, sem perder a intensidade da mensagem, nem mesmo a sua musicalidade.
Torga, neste poema “Douro”, coloca-nos no meio da terra, que em tempo da colheita das uvas, ferve, abrasa, endoidece quem nela trabalha. É a vida em tom de dor. Mas tudo se esquece e tudo é ressalvado, por esse nectar que… roxo, vermelho e em mosto se transforma para ir…até aos confins do mundo, numa peregrinação de “sabores”.
Neste poema, sentimos a força das palavras numa musicalidade presente. A mensagem aí a temos com palavras de vogais abertas, em abraços rimados.

Maria José Areal

Crianças com guitarras

A Nossa Grande Casa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Nossa Grande Casa

Um Poema Sobre a TerraVivemos todos aqui.

Pessoas, formigas, elefantes, árvores,

Lagartos, líquenes, tartarugas, abelhas.

Todos partilhamos a mesma grande casa.

Partilhamos a água.

Salpicamos, chapinhamos e nadamos na água.

E todos bebemos água.

Baleias, golfinhos, manatins,

Pinguins, palmeiras, tu e eu.

Todos partilhamos a água na Terra,

A nossa grande casa azul.

A chuva desliza pelo meu nariz

E escorre pelos dedos do meu pé.

A chuva limpa o mundo todo.

Rega florestas de árvores gigantes

Desperta a vida em sementes minúsculas.

Traz água fresca a ti e a mim.

Todos partilhamos a chuva na Terra,

A nossa casa verde a crescer.

À volta do mundo

O sol a todos aquece.

Girassóis, andorinhas, macieiras,

Raposas, fetos, tu e eu.

Aquece dedos e pés,

Aquece raízes e folhas.

Todos partilhamos o sol na Terra,

A nossa casa grande e quentinha.

Há monturo por todo o lado,

Na Terra, no nosso solo.

Solo onde as sementes aguardam

E as árvores nascem,

Onde as minhocas vivem e os coelhos escavam.

A Terra contém a vida

E o monturo que piso com prazer.

Todos partilhamos o solo na Terra,

A nossa grande casa viva.

E há ar por todo o lado,

Bem longe e bem perto.

Todos respiramos o ar da Terra.

Não é bom respirar?

Pessoas, lagartos, joaninhas,

Carvalhos, ervilhas, ervas daninhas.

Todos partilhamos o ar na Terra,

A nossa grande casa arejada.

O vento sibila e volteia,

Varre e rodopia.

Remexe a erva e abana as árvores.

Transporta chuva, espalha sementes.

Traz ar fresco e revolve cabelos de crianças.

Por todo o mundo.

O vento a todos toca na Terra,

A nossa grande casa rodopiante.

O céu é uma imagem nossa que muda lá em cima.

Gosto do céu. E tu?

Grandes extensões de azul,

Pinceladas de nuvens,

Borrões selvagens ao entardecer.

Onde quer que estejamos

Olhamos e vemos

Céu, céu, céu.

Aqui na Terra, a nossa grande casa

Debaixo do céu.

À noite, quando as estrelas brilham,

Na escuridão funda e profunda,

É o tempo de cair no sono,

Dos animais vaguearem

E das flores nocturnas desabrocharem.

Todos temos um tempo de escuridão

Aqui na Terra, a nossa casa

Debaixo do grande manto da noite.

E a nossa lua viaja pelo céu

Cor de pérola cremosa

Uma vela branca fininha.

Lua cheia, lua nova,

Dão corpo à nossa noite.

Todos partilhamos a lua

Aqui, ali, por todo o lado na Terra,

A nossa grande casa luminosa.

Quando me estico ou danço,

Salto ou rio,

Pulo no ar ou na relva me estendo,

Sinto-me vivo.

Todos sentimos a vida.

Árvores, rãs, abelhas, relva,

Aranhas, serpentes, minhocas, morcegos.

Todos partilhamos a vida na Terra,

A nossa casa grande evivificante.

Partilhamos o ar, a água, o solo e céu,

O sol, a chuva e a vida.

E todos partilhamos o mesmo lar, aqui na Terra,

A nossa preciosa morada.

 

Linda Glaser; Elisa KlevenOur Big Home – An Earth PoemMinneapolis, Millbrook Press, 2000(Tradução e adaptação)